Andarilho

Falar de si mesmo é um ato exibicionista, pensei que poderia driblar esta situação através de um personagem que assumi. Me chamo Roberto Furtado, e muitos me conhecem como o Andarilho. Cursei até o 6º semestre da faculdade de Engenharia Mecânica, grande parte na PUCRS, e mais um período na UFRGS. Neste curso encontrei a identificação técnica, que me permitiu ser tão detalhista como qualquer profissional onde esta qualidade é necessária. Cursei toda etapa dos materiais, área que mais aprecio. O curso que não concluí serviu para me dar uma vivência técnica a qual aplico nas reflexões sobre a bicicleta, também nas tarefas da fotografia. Assim será na produção audiovisual, minha atual graduação.
Entre personagem Andarilho e o vivente Roberto existem relações de verdade e fantasia, mas sabemos que de um mesmo eixo surgem personalidades que se confundem. Acredito que devemos nos poupar em imagens pessoais, mas não em feitos e palavras, e outras importantes  realizações que se transformam em alguma verdade positiva... estas sim devemos divulgar ao máximo. Somente assim poderíamos ter a força através da confiança das pessoas.
Era criança ainda quando os primeiros "sintomas" de "andarilho" surgiram. Na praia onde meus pais tinham uma casa, passávamos as férias com minha mãe, que na época era professora, proporcionando pelo menos 2 meses de temporada na praia. Lá cresci com a liberdade que as crianças hoje não conhecem, e passava a maior parte do tempo indo a diversos lugares com um raio de distância que raramente alcançava 2 km. Para um piá de 10 anos, se tanto tinha, isto era até demais. Naquele tempo havia uma certa segurança, e a conservação de vários biótopos ainda era uma realidade. Não haviam tantas casas lá, e nas minhas  andanças observava na maioria das vezes os peixes de banhados pequenos, da lagoa que existe até hoje no lado oposto ao mar, e no próprio mar, onde fiz muitas pescarias que deram lugar a histórias e memórias. Ali, naquele momento nascia o "andarilho" que existe em mim até hoje. Andarilho que usa carro, bicicleta, mas  segue seu destino mesmo que esteja a 300 km de casa. De lá pra cá, mais de 20 anos se passaram, e a cada 3 anos, como costumo colocar em escala de tempo, aprendi muitas coisas. Com o passar do tempo, tornei um fotógrafo de verdade, de espírito,  em especial um fotógrafo de natureza. E nesta habilidade de fotografar natureza desenvolvi as práticas de observação que todo andarilho deveria ter. Estas habilidades são adjetivos que se estendem a vida profissional de todos, são complementos de um ser humano capaz de realizar distintas tarefas. Visitando lugares onde o homem não costuma ir, descobri animais que não imaginava existirem, como peixes que ainda não foram identificados, e até mesmo um crustáceo que ninguem conhecia. O mundo, apesar de depredado, ainda guarda uma fauna e uma flora que ninguém conhece. Preservar é preciso. E neste sentido da vida se encaixa a preservação do meio ambiente de forma legítima, onde a bicicleta é a única maneira de locomoção que nos permite poupar o meio. Onde a bicicleta esta para nos levar, esta a máquina para registrar os momentos que descrevo como únicos. Desta forma, minhas paixões continuam sendo fotografia e a bicicleta, e assim imagino até o fim dos meus dias. E apesar de pensar assim, respeito toda forma de pensar diferente que tenha consciência e paz de espírito. A tecnologia sem dúvidas combina com a natureza, pq será dela que virão as opções de preservar. Frenar bruscamente significa retroceder, pois para quase tudo existe uma inércia funcional. Parar a máquina que desenvolve tecnologia é também arriscar o tombo na natureza. O sentimento de Andarilho é este... é uma forma de pensar, de existir, de se relacionar. De viver junto ou separado, mas de forma gratuita, boa... de princípios. Este é um resumo do que é ser Andarilho.