terça-feira, 25 de setembro de 2012

GT Timberline FS... é revitalizada!

 Dias atrás resolvi assumir este projeto... e um amigo aqui de Porto Alegre quis mostrar suas habilidades sobre processos revitalizadores. Concordei em passar a bola para ele, ou melhor a bike, pois tenho tido muitas tarefas para realizar. Desta forma permito manter o ritmo do blog, e ainda podemos descobrir os dotes de outros apaixonados pelo mundo old shool. Logicamente já havia avaliado os trabalho do André Alves, e eu diria que este é surpreendente. As imagens deste post são do trabalho concluído.
 André fez um serviço de polimento em cantinhos da bicicleta, e um trabalho geral que levantou a moral da bike. Procuramos deixar as peças que podiam ser utilizadas, e as peças que não podiam substituímos por peças da época, naquele trabalho de garimpo que somente os dedicados conseguem compreender. As dificuldades de se encontrar componentes. O selim e as manoplas foram utilizados da GT, porém modernos. Assemelham-se ao material da época, inclusive pertecem ao mesmo fabricante fornecedor da marca, a Velo.
 Os câmbios e o pedevela utilizamos Shimano STX, pois estavam em excelente estado. As molas estavam fortes, as folgas inexistiam, e as coroas estão em plena ordem, sem qualquer sinal de desgaste. O cassete é também original, apresenta mínimo sinal de desgaste, que com a corrente nova deu uma pulada. Contudo, espera-se que o casamento das duas peças ocorra nos primeiros 50 km, uma vez que seja mínima tal relação de desgaste. Caso isto não ocorra, já separei um cassete novo de 7 velocidades para substituição. Devemos manter tudo mais próximo do original no assunto da revitalização reconstrutiva. 

 A mesa de sistema aheadset foi uma decisão difícil. Este modelo, originalmente possuia caixa de direção over de rosca, de inserção na espiga do garfo. Como achamos essencial dar este destaque do guidão e mesa com tratamento superficial específico de uma época, optamos em aumentar a espiga utilizando embuchamento de aço com solda TIG. Deixamos a espiga alta pq é conveniente tal opção já que o aumento foi realizado. Aquele que resolver desfrutar da bicicleta, poderá decidir a altura ideal. O recorte pode ser feito posteriormente, em qualquer oficina de qualidade. 
A suspensão Rock Shox, original da época, estava em excelente estado. Foi revisada pelo Tchaka, assim como os cubos dianteiro e traseiro. Suspensão aberta, limpa, lubrificada, e nada foi substituído ou  reparado, apenas limpeza e lubrificação. André verificou o estado dos tubos, onde se remove o movimento central, caixa de direção, etc. Antes de remontar, cobriu as faces com graxa, evitando a corrosão devido a umidade do tempo. 
O platô protetor de raios que aparece junto do cassete foi substituido por um novo, mas semelhante. Este disco de plástico estava amarelado, rachado devido ao uso e tempo.
A bicicleta não apresentava nenhum sinal de corrosão, era um material de uso normal, nada extremo, mas sem cuidado de manuseio. As marcas na pintura justificam esta afirmativa. Muitas das marcas na tinta foram retocadas pelo André. Esta tarefa faz parte do trabalho de revitalização de bicicletas. Isto inclui também em manter sapatas de freio cantilever, que obviamente apresentam um endurecimento físico da borracha, e consequentemente ocorre a perda de desempenho na frenagem. Por isto, também deixei uma reserva. Consegui sapatas de freio XTR, originais para cantilevers, e as deixo guardadas para necessidade da substituição. A carta na manga deve ser uma preocupação dos saudosistas, pois de outra forma, proprietário do projeto deverá optar por peças modernas, e isto traria um ônus considerável ao princípio restaurativo.

Os pedais também foram instalados da época. Não havia como utilizar algo moderno neste projeto, então aplicamos os pedais que restaurei tempos atrás. Eram instalados em uma bicicleta Haro da década de 90. Se aproximam muito aos que eram aplicados na GT, diferenciando por referência do fabricante. Possivelmente o design destes também não era igual. Nas imagens que encontrei na rede, não pude precisar o modelo. E os que vieram na bicicleta foram substituídos pq eram de alumínio, totalmente diferentes dos originais.  Os aros e cubos são de uma irmão próxima, outra GT da época. Os aros parecem ser os mesmos, mas como não possuem inscrição do modelo, então fica impossível afirmar que sejam iguais. Podem ser mais largos ou mais estreitos, e a precisão neste caso termina sendo determinante no resultado final do projeto. Quem quer se aventurar neste mundo da restauração e reconstrução, precisa ser "chato", exigente! Ter noções sobre materiais, sobre os processos que envolvem pintura, solda, e conhecimentos gerais sobre as bicicletas. 

Por indícios da própria bicicleta, e de informações encontradas na internet, tais como bicicletas reconhecidas por semelhança e banco de dados do Bikepedia, pudemos precisar o ano desta bicicleta como sendo de 1995. Os tubos de Cromoly, ou Cr-Mo 4130, descrevem aquela velha história pregada aqui no blog. O material é nobre, me desculpem os insistentes e de certa forma ignorantes sobre o assunto. Cada material tem seu lugar no mercado, mas Cr-Mo não é um aço comum, tampouco deve ser comparado em qualidade ao alumínio, e equiparações sobre peso e desempenho em provas, diminuem em um degrau a afirmativa de quem contesta esta minha insistente valorização do material. Aço Cr-Mo é forte como o alumínio jamais será, flexível como o alumínio jamais sonhará, nobre em sua composição como muitos jamais compreenderão. É um material que decaiu na aplicabilidade por motivos diversos, muito provavelmente por interesses da industria. Contudo, a industria não consegue se livrar dele, pq nenhum outro possui tais propriedades. É como ter caráter, ou se tem, ou não se tem!

Voltando a bicicleta, também é relevante falar sobre detalhes pequenos. Os parafusos para fixação de bagageiro, da garrafinha ou outros acessórios, ainda era originais. As blocagens era da shimano, mas eram de alumínio, modernas. Naquele tempo, principalmente em cubos mais simples como os Alívio, Acera, Altus, e até mesmo os lendários Exage, eram aplicadas blocagens de aço cromado. Estas possuiam grande funcionalidade, qualidade de aperto, e grande segurança. Digamos que foi neste período que as blocagens ganharam respeito!
Antes destas, era comum ouvir falar... "minha blocagem abriu!" Tal fato era inclusive perigoso e muitos, antes deste período, trocavam o eixo para porca e parafuso com este receio. Lembro disto... 
Vale frisar esta história, pq as blocagens realmente melhoraram muito no final dos anos 80, começo dos anos 90. Talvez pelo emprego de aços de qualidade em blocagens.
Sobre os raios das bicicletas, inclusive desta, em sua maioria, com exceção dos modelos mais tops, eram zincados. 
Não tinha bicicleta que no passar do tempo, possuisse raios limpos e brilhantes. Eles ficavam velhos, sem brilho, manchados. Também possuiam menos resistência a tração e talvez a fadiga. 
Bom, finalizo este post agradecendo a colaboração do Eduardo Macedo pelo garimpo da mesa GT, ao Tchaka pelos serviços prestados de sempre, e ao André Alves pelo minuncioso trabalho de limpeza, polimento e valorização do material. André é também um grande amante das old bikes. Possui jóias raras como uma Gary Fisher e uma GT Tequesta de tirar o folego. Espero que estes exemplos sejam seguidos em favor da história que representam as bicicletas da década de 90, assim como outras olds de qualidade. Não são poucas as bicicletas deste tempo, mas cada vez mais raras de encontrar em bom estado. Todo aço, em seu tempo e uso, se aproxima do seu ciclo de vida. Quando um dono desiste de sua bicicleta, a tendência é que dela se esqueça, depreciando-a, e de uma forma não intencional, ela acabará numa recicladora de aço. Se uma bicicleta é aproveitada ao máximo, estamos a pensar de forma sustentável, dando um uso coerente a um veículo que foi a maior invenção do homem. 

Roberto Furtado