terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

Nos correios... uma estrada de 80 anos!

fotografia: Roberto Furtado
Esta estranha vida de se relacionar com pessoas devido a existência da bicicleta, nos leva a experiências incomuns. Um amigo de longe, pediu-me para enviar cambio dianteiro old school. Pacote feito, bem fechadinho, pronto para enviar no dia seguinte. No pacote embalado com papel pardo, endereços a caneta, escrita quase ilegível que preciso corrigir devido aos anos de hábito em escrever rapidamente. A postagem faria na agência central dos correios, Siqueira Campos, pertinho da prefeitura de Porto Alegre.
Manhã de sábado, pertinho do meio dia... Fui a agência central dos correios. Saguão relativamente cheio, senha de espera na mão... catei uma cadeira lá bem na frente. Sentei na primeira cadeira da segunda fila. Ao meu lado, 5 cadeiras disponíveis. No colo, minha mochila de guerra onde carrego o material fotográfico. Sobre a perna o pacote com destino a São Paulo. Enquanto me lamentava pela falta de agilidade dos correios nos atendimentos, pela minha frente passou uma senhora que me olhou nos olhos. Estranhei, mas sem dar muita importância, fiz-me de louco! Sentou ao meu lado e tive aquela sensação de estar sendo vigiado. Olhei para o lado, e ela largou a primeira frase e na continuidade despejou talvez uma resenha de sua vida. Mais ou menos assim: “Estou acompanhando meu filho que esta na fila, tenho 80 anos, meu marido 90 anos. Trabalho até hoje, nunca parei. Meu filho é aquele ali que acabou de olhar pra trás! Estão sempre me cuidado, ele e a esposa. Meu marido é militar reformado, muito lúcido, mas cego de um olho. Mesmo assim temos muita saúde. Na empresa que tenho, dependem 6 pessoas de mim.”
Quase sem tempo para que eu pudesse perguntar ou dizer alguma coisa, ela muda de assunto e pergunta. “Quantos anos tu tens?” Respondo: 35 anos! Ela rebate dizendo que tenho cara de “guri”, e que minha mãe deveria ser bem jovem ainda. Respondo que sim, informando os 58 anos. Na estranha demora que o filho enfrentava na fila, entendo que ela encontrou uma distração. Uma prosa para reforçar a mente com suas verdades. Outra coisa que ainda não entendo por possuir menos da metade da idade dela. Falamos por uns 20 minutos, até que o filho, bastante sério e educado, aproximou-se e disse "olá" para mim, e "vamos mãe" para senhora. Ela despediu-se de mim desejando saúde, e enviou um beijo para minha mãe. Meio pasmo, percebi que ela poderia ter sentado ao lado de qualquer um, mas escolheu-me para presentear com uma conversa tão agradável e verdadeira. Algo que muitas vezes nem se percebe mais nas conversas de seriedade. A seriedade transformou-se em mentiras, disfarces e outras façanhas da inverdade das relações necessárias. Tanto que sei muito bem valorizar as pessoas onde percebo este comportamento. Talvez, a senhora tenha pensado em disseminar um bom hábito de prosear com educação, gentileza, e gratuidade. É possível que seja desta forma, talvez eu seja apenas um sortudo, mas um dia nos correios mudou um pouquinho da minha vida. Nunca soube o nome dela, ela jamais soube o meu, e certamente eu teria convidado ela para um café se tivesse a oportunidade. As coisas realmente mudaram e a prova disto são algumas pessoas que beiram o abismo da velhice. Hoje, lembro do meu avô, sua cordialidade sincera. Saudade do meu velho avô... alto, grisalho, gentil, amigo.
Saudade é como uma estrada onde tu olha pra trás depois de muito andar, percebe que esta longe demais para qualquer coisa... como voltar ou desistir! Pensa quanto esta longe, sente falta de quem ama, e sabe que a solução não é nem um pouco viável ou imediata. Este vazio traz a tona diversos sentimentos de equívoco sobre nossos comportamentos. Se soubermos levar a vida de forma digna, seremos realizados... não é dinheiro, não é poder, não é fama! É paz, gentileza e sensibilidade. A leveza de viver vem de palavras que estão diretamente relacionadas a adjetivos de uma jornada em uma longa estrada de pedal. Uma estrada ensolarada de primavera, onde a paisagem faz você lembrar pq existe vida. E de certa forma pode parecer estranho... sabemos? Toda pergunta deixa ainda mais dúvidas. Assim: Como uma ida aos correios pode mudar sua vida? A vivência traz respostas, e traz tantas perguntas. Sem tantas respostas, recomendo apenas... Roda pra frente! Talvez assim algumas dúvidas sejam sanadas com estranhas oportunidades como esta de estar na "fila" dos correios, ao lado de uma senhora sem nome, e que tinha 80 anos de estrada.

Roberto Furtado