terça-feira, 22 de março de 2011

Sincronia entre corpo e mente!


No último Audax que fiz, em maio de 2010, percebi que as coisas não eram tão simples como pareciam. Subir na bicicleta e pensar positivamente que tudo vai dar certo, juntar a experiência vivida antes, reunir aos comentários dos colegas, e assim pensar que o sucesso esta garantido nos coloca em uma situação delicada. Pensamos que podemos, mas nem sempre o corpo aguenta... ou talvez, a bicicleta não estivesse devidamente acertada. Aquela prova que marca minha frustração, é também algo de meus pensamentos toda vez em que respiro um Audax. Sim, formou-se um trauma! O efeito traumático de um abandono de prova, especialmente depois de ter pedalado 225 km dos 300 totais, definitivamente é um peso para quem vive a experiência. Depois disso, prometi a mim mesmo que superaria esta infeliz lembrança. Talvez não tão infeliz, pq se houve ferida, foram substituídas por cicatrizes que agora me fazem ter os pés no chão. O Audaxioso tem que ser um sonhador, mas nunca pode deixar que o sonho tenha a plenitude de seus pensamentos, pq no Audax conta a estratégia, ritmo, confiança com a ciência de conhecer o próprio corpo. Hoje, muito menos que vários, sou mais experiente... nem tanto como os colegas e amigos que fizeram 10-20 Audax, mas lembro que a observação de mais de 10 provas como fotógrafo e voluntário, acabam me trazendo um conhecimento que é raro. Esta observação, de olhar os colegas nos olhos, ver o ritmo dos pedais, ver o estado que cada um chega ao PC, acaba sendo parte do conhecimento que se torna a alma do ciclista vencedor. A cabeça pode, se o corpo não tiver nenhum problema, você consegue! Não diria mais que a cabeça pode, o corpo pode! A lesão que tenho da última prova me acompanha até hoje... já tem quase um ano, e ainda carrego alguma dor na perna direita. Uma tendinite leve, acompanhada de inflamação do trato ilio-tibial, trazem desconfortos suficientes para abandono de qualquer prova... pq a dor acaba com a mente. A mente é vencida pela dor do corpo. Agora me pergunto sempre pq acabei gerando isto... a falta de alongamento gerou algo tão difícil de desfazer. Sinto as pernas fortes, capazes de subir lombas bastante íngrimes sem fraquejar, mas se faço isto... um ou dois dias depois, volta a dor. Persiste, como se fosse lembrete para nunca mais forçar. E será mesmo que não poderei mais forçar? As arrancadas rápidas que eu gostava de fazer em brincadeiras, sozinho pelas ruas da cidade, ou nos passeios, estariam agora com os dias contados? Talvez até isto seja parte da formação de um Audaxioso, saber quanto pode forçar, quanto aguenta sem lesionar o corpo. Forçar ao extremo apenas para testar-se não é mérito... nos Audaxiosos, é demérito! Vencedor é aquele que chega, e no dia seguinte esta apenas cansado... sem lesões. Se ganhou uma lesão, acaba sendo esta a multa pelo excesso. Contudo, pensamentos sobre provas de longa distância, destaco para que ninguém esqueça. Nós, Audaxiosos de final de semana, somos mortais, somos pessoas normais que trabalham durante a semana. Atendemos a família, alguns trabalham finais de semana também (não é raro eu ter trabalho em final de semana), e ainda precisamos atender o lar. Cuidar do material de trabalho, alguma coisa da casa, manutenção do carro, bicicleta, ajudar um parente, e por aí vai. Quantas vezes pedalamos realmente durante a semana? Algumas vezes nem uma vez se consegue... 
Se você já foi derrubado por um gigante de 200, 300, 400, 600 ou 1000 km, não desanime, não esqueça que o gigante vai estar lá todos os anos. Um dia você perde, outro você derruba ele, e a vida continua. Segue o pedal da vida, pq no amanhã tem trabalho, no dia seguinte tem convívio familiar, um parente que chega de fora, e o gigante acaba por esperar. Perde hoje, cresce e fica forte amanhã! Poe tua mente em sincronia com teu corpo, com tua vida, e aguarda pelo amanhã. O gigante pode esperar!
Este escrevi para outros como eu, que um dia foram derrubados por um gigante.
Um abraço

Roberto Furtado