sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Audax 200 km - Parte 04

Gelson e eu... foto de Raul Grossi

Toda vez que começamos um Audax, pensamos que sabemos tudo, que tudo sairá como imaginamos, baseados nas provas anteriores. Um engano é o que pensamos sobre isto... toda vez é a vez de uma nova gama de acontecimentos, uma nova oportunidade de aprender. Comecei pedalando devagar, acompanhando os amigos Ewerton e Gelson, cúmplices de provas anteriores. Em experiência de prova me localizo exatamente entre os dois, e os observo para que a referência me dê os parâmetros de bem estar, desempenho e tudo que esta relacionado a uma prova. Logo após o 2º pedágio, acesso a charqueadas pela estrada estadual, nos separamos, e cada um fez seu ritmo. Nada de especial para nenhum de nós. Logo em seguida, resolvi apertar o ritmo para fazer umas fotos na ponte alta, aquela que fica antes de General Câmara. Durante este trajeto, passei por uma lombada eletrônica que curiosamente marcou 32 km/h, mesma velocidade que se mostrava no meu ciclocomputador. Para mim, um ritmo bastante alto, especialmente por portar pneus 26 x 1,95. Adiante, senti um pequeno peso na bike, e a bolsa de touring do bagageiro encostou na parte de trás da minha coxa esquerda. Me causou estranheza, e logo vi que a haste de "aluminio" que fixava o bagageiro ao quadro, havia se partido. Desci da bike e olhei para a pecinha maldita... percebi que a bolsa se apoiara no meu freio, freiando a bike, além de ficar meio ao estilo "já vou cair". Chamei-a de "#*@:(#!", soltei o cabo do vbrake traseiro, e sentei na beirada do acostamento... um pequeno barranco. Um lugar muito bonito, com banhado, e ao longe se via a ponte alta. Resolvi comer os sanduíches carinhosamente "fabricados" pela querida companheira. Uma bebida isotônica (não faço propaganda de graça) muito saborosa acompanhou o sanduíche. Fiquei ali pensando nas coisas, naquela natureza, e de como teria sido um dia aquela região. Meu avô nascera em Santo Amaro, por isto tenho a localidade como algo especial... quase espiritual, por assim dizer. O pessimismo foi amassado por um otimismo, e pensei que o bagageiro me faria falta, mas não me impediria de prosseguir e completar a prova. Me organizei, arrumei a bagunça, guardei a garrafa vazia e a embalagem do sanduíche na bolsa, e retomei a pedalada com o bagageiro dançando. Cheguei ao PC e retirei o bagageiro com bolsa e tudo (máquina fotográfica, ferramentas, todo material que levo para reparo, uns 4 kg ao total), e entreguei a esposa de um amigo. Recoloquei a placa na bike, pois estava presa ao bagageiro, carimbei meu passaporte e retomei a viagem. Fiz média alta neste trecho, queria recuperar um tempo perdido. Na última descida que antecedia a última subida... embalei sem pedalar, imóvel atingi 60 km horários, aproveitando ao máximo todo rendimento de minha bike reguladinha. Cheguei ao PC 2, comi uma massinha no pesque pague panorama. Bebi uma preta cola, enchi minha garrafinha de 500 ml, e toquei em frente. Na descida, senti que algo segurava a velocidade. O vento era forte para quem pedalava, e o peso nas pernas era evidente. Preocupei-me com a hidratação, pois agora tinha como levar apenas uma garrafa de 500 ml. No Ponto de apoio, fiz uma pequena pausa, e molhei bem a cabeça para baixar a temperatura do corpo. O sol era forte em alguns momentos, associado ao vento, secamos! A hidratação era muito importante, e eu tinha apenas a pequena garrafa de "merda". Confiante, mas com um pouco de sede, cheguei ao PC 3... onde tomei uma garrafa dágua, uma garrafa de suco, e percebi que não caberia mais uma gosta de líquido em meu estômago. Enchi a garrafa e parti do PC 3 em direção ao destino final... sem parar, mas com médias entre 20-22 km horários, contra o vento, passei por alguns colegas, pensando que eles teriam vantagens que eu não tinha, e por isto não poderia me dar o direito de parar. Passei pelo pedágio da BR-290 e acenei para alguns colegas, mantendo o ritmo e focado no meu objetivo. O trajeto entre este pedágio e o viaduto elevado da BR-116 pareciam eternos... as vezes sentia dor nos braços, mas acredito que fosse por causa da tensão em que me encontrava. As pernas fracas... clamando por energia, não faziam mais do que 18-20 km por hora. Quando atingi a BR-116 logo me surgiu mais uma esperança... não tinha como não conseguir. Tomei o último gole dágua que havia na garrafa, e aproveitei o pico de alegria para ser motivado. Neste momento, o vento pareceu ajudar, pois eu havia mudado de direção. Com o vento soprando fraco, pedalei suave com velocidade acima de 23 km por hora. Na subida lenta sobre a ponte, uma espectativa boa na descida. Pouco a pouco eu me aproximava da ponte do Guaíba. Na ponte, uma pequena subida antecede... e eu senti fraqueza. Não consegui subir a lomba, e parei praticamente no topo. Não conseguia mais pedalar, faltou energia... senti-me tonto, e me segurei na proteção de ferro que havia no acostamento da ponte. Parei um minuto, e senti que passara a tontura, e que as pernas aguentariam mais alguns metros. Fiquei atento ao movimento dos veículos sobre a ponte, e desci a lomba, fiz os retornos e cheguei ao DC navegantes onde havia a recepção, posto de controle final e "COMIDA e BEBIDA". Meus pais, irmã, esposa, e os amigos Raul e Ewerton, me aguardavam. Olhei para minha esposa e disse: "preciso de um salgado e uma preta cola!"Este foi o Audax mais difícil que já fiz, nem mesmo o Audax 300 me deixou tão a beira do fracasso.O resumo da história é uma lição, devemos redobrar a atenção sobre os problemas que podem surgir, pois estes destroem nosso emocional, nossa estrutura. Na falta de algo, uma cascata de acontecimentos se apresenta, e é preciso ser muito mais equilibrado emocionalmente, do que forte fisicamente. Agradeço de coração a família e aos amigos pelo apoio e crença, e aos colegas de prova pela motivação por ali estarem. Em especial a organização e aos voluntários, por esta prova bem estruturada, e dedicação gratuita. Um abraço e até a próxima (sim, haverá uma próxima!).

Roberto Furtado