sábado, 9 de maio de 2009

Gaúcho Voador... o passado de um ciclista!

Antes que leia o texto abaixo, gostaria que refletisse a respeito das verdades da vida, e da ótica que cada pessoa tem e faz. Não esqueça que cinco entre dez testemunhas de um incidente, dirão que o carro estava muito rápido e que outras em outro ângulo poderão dizer algo até mesmo oposto. Aos olhos do observador, tudo se faz, e até se cria, basta acreditar. Alguns detalhes serão delírios de um ciclista, outros... não! Em meio a fatos verdadeiros hão fatos "enfeitados", por assim dizer. Algumas das coisas mais absurdas abaixo são verdade, outras mais simples, enfeites. Entenda como quiser, sonhe junto, mas não deixe de voar, mesmo que seja apenas com o coração. O coração é o que faz de nós vencedores e bons colegas, ciclistas!


Gaúcho Voador
Não lembro quando tive meu primeiro contato com um veículo tracionado por pedais. Pelo que pude ver em fotos de infância, e portanto o que posso provar, um de meus primeiros contatos com um triciclo foi em torno de 2 anos de idade. Depois lembro de mim, também em fotos, passeando no quintal da casa de meus avós em um veículo com formato de "joaninha" movido por pedais e tração dianteira, como no veículo que descrevi anteriormente. Posteriormente, lembrei-me de um fusca conversível amarelo, de tração a pedais. Não o considero uma bicicleta ou próximo disto, mas pensando sobre ser movido por sistema de pedais em tração traseira... resolvi pelo menos citá-lo. Após isto, tenho lembranças de estar passeando pelas ruas da praia onde meus pais tem uma pequena casa. Tratava-se de uma berlineta, bicicleta dobrável da caloi, de geometria confortável e clássica da época. Não lembro do ano ao certo, mas para mim estar andando de bicicleta, só poderia ter mais de 5 anos. Por conclusão... não sei ao certo! HEHEHEHE Tempos mais tarde, durante o inverno nossa casa de praia foi arrombada, e levaram a magrela que era de cor vermelha. Seria este meu terceiro contato com uma magrela, se é que assim podemos apelidar triciclos e bicicletas. Em seguida tive uma monark BMX, muito interessante por sinal, pois ela possui aparência de moto. Possuia um falso tanque de combustível na cor amarela, bem como os demais adornos, como paralamas e o banco comprido. Fiquei um bom tempo com esta bike, até que um inusitado fato aconteceu no prédio onde morávamos. Minha querida bike, e a de meu irmão, foram furtadas do quartinho de bicicletas. Uma história com pernas curtas, contada pelo zelador do edifício, e com uma tentativa de sustentar a mesma, por uma vizinha que por sinal não se afinava com meus pais. Bom, esta história sobre o desaparecimento das bikes não importa muito agora, mas foi um trauma para mim, eu realmente gostava daquela "bici", e por direito ela era minha. Lá se foi mais uma bici... e meus pais, muito irritados com a situação de um condomínio que era formado por pessoas sem bom senso e ética, resolveram presentear-nos com bikes novas. Ganhei uma caloi aerofree, uma freestile com calotas brancas, original a moda da época. Usei bastante a bike... inclusive no pátio do edifício, e acho que aquilo deve até ter irritado algumas pessoas. Engraçado como pequenas ações sem qualquer maldade icentivam a irritação em pessoas infelizes, plantando a inimizade. Este problema era dos descontentes, eu estava me "lixando" para eles. Queria mesmo era andar de bike, e fazer as coisas que tinha direito. Pouco tempo depois, minha mãe comprou uma caloi barraforte para meu pai, e se não me engano foi para o dia dos pais. Não sei se ele gostou muito, mas eu adorei... passei a andar de barraforte, até pq a caloi de aro 20 estava pequena para mim. A barraforte tinha rodas grandes e parecia correr muito mais, o pátio do prédio estava pequeno demais para mim. Comecei a andar nas calçadas, na época normal, mas hoje acho muito perigoso para os pedestres. Esta bike ficou muito tempo comigo... depois a vendi. Por sorte minha e de meus irmãos, meus pais compraram uma casa distante do prédio onde morávamos. Nesta nova casa, comprei minha primeira mountain bike, usada, mas em excelentes condições. Com 18 marchas, esta bike me levou a muitos lugares, e com bastante agilidade. Andei um tempo com ela, mas andando tanto ela foi apresentando limitações que eu aprendi a conhecer. Acabei vendendo-a para levantar uns "pilas" para uma outra. Juntando uns trocados que consegui com a bike vendida, com outros valores dados pelos meus avós e pais, comprei uma sensacional bike para a época. Uma monark altus, com grupo shimano de 21 velocidades, com trocadores do tipo rapid fire da shimano. Uma bonita bicicleta que trazia recursos interessantes para o ano de 92, como blocagens rápidas para as rodas e selim, além de câmbio indexado. Muitas voltas dei nela, fiz algumas trilhas na época, depois a troquei por uma caloi 10 com peças modernizadas. Descobri que gostava da velocidade, e não das trilhas. Bom, pelo menos naquele momento. Com uma caloi 10 com pneus finos como um dedo indicador (tubulares), passei a descer lombas e retas desempenhando grandes velocidades. Imagino que se a minha mãe visse, me proibiria, mas os filhos sempre escondem estas coisas com o medo da própria proibição. Querendo evoluir na velocidade, investi ainda mais na minha bike. Percebi então, que necessitava trocar a alma da caloi 10, por alguma outra speed de maior rendimento. Optei na época por uma caloi 12, comprada com suados pilas do meus pais, e passei as peças da caloi 10 para a nova bike. Que apesar de parecer ser quase igual, trazia geometria mais favorável, além de ter o tamanho correto para mim. Para minha desilusão, pouco mudou... descobri coisas que só o experiente atleta entenderia. A nova bike tinha problemas de geometria... as rodas se cruzavam olhando-a por trás. Um rendimento perdido, e que poderia inclusive causar danos a minha saúde. Juntei mais um dinheirinho, e em primeira oportunidade comprei uma bike de verdade em 1995. Uma trek 2000 que possuia quadro e garfo de aluminio easton, com geometria perfeita! Colocavam-se as rodas e após apertar as blocagens, a bike estava pronta para voar. Substitui o grupo shimano 105, por um grupo campagholo mirage e pedevela veloce. Os trocadores eram agora do tipo ergopower, voava sobre retas e descidas. Na tentativa de alcançar a maior velocidade possível, desci uma lomba de Porto Alegre, atingindo 78 kilometros horários. Precisava me adaptar a nova relação e a própria bike. Adandando pouco Km por dia, cerca de 20-25, foi suficiente para que eu aprendesse a usar a bike em menos de mês. A capacidade também foi aumentando... em uma segunda descida atingi 85 Km/h. Senti que a relação era forte demais para minhas pernas, que não suportavam ultrapassar estas marcas. E já neste ponto, 3 km horários extras representam grandes sacrifícios, uma maior potência sobre as pernas. Pouco a pouco, e com um melhor preparo obtido por subir lombas como da Rua Clemente Pinto, Cristiano Fisher, e até Lucas de Oliveira, fui obtendo resultados melhores. Tinha boas marcas para um atleta amador, buscava a própria superação, e não a promoção. Fazia alguns "rachas" ciclísticos ao longo da beira rio nos domingos para sair da rotina. Na totalidade vencia... estava muito forte, tinha um explosão impressionante. Uma vontade movida por uma sede de superar, quase uma raiva temporária, me impulsionava a pedalar cada vez mais. Participei de algumas provas da Federação, mas não me adaptei bem. As provas não tinham meu perfil... gostava de duas marcas. Sendo elas a de maior velocidade atingida, e percorrer longas distâncias. Passado algum tempo, resolvi descer a Cristiano Fischer para testar novo limite. Comecei pelo início da rua, onde ela era bastante plana e tendia a uma pequena inclinação em seguida. Respirando devagar, pedalando leve, atingi cerca de 34 kilômetros horários antes do começo da descida. Com a mente e o coração tranquilo, pernas preparadas, entrei na descida aumentando gradativamente a força até percorrer 1/3 da lomba. Ultrapassando a marca de 1/3, fui movido por uma explosão como de um cavalo de corrida, pernas rígidas e fortes em raro momento de força... dezenas de kg sobre os pedais cliples. Com os olhos cheios dágua pela velocidade, tive um pouco de dificuldade em ver o chão. Segui mesmo assim os contornos da rua, meus olhos viam e meu coração acreditava. Os braços firmes no guidão garantiam o direcionamento da "nave". Naquele momento percebi que descera mais rápido que um carro que também descia, pois havia passado do mesmo. Cheguei ao fim da descida, e precisava conferir a velocidade máxima marcada ao computador de bordo. Sabia eu, que havia descido muito rápido, e que muito provavelmente havia superado as antigas marcas. Ao parar, conferi e lá estavam os 87,2 km/h... quase não acreditei em tamanha superação. Poucos acreditariam também, mas eu soube que era possível, pois ali estava o registro... vivi a emoção. Mais tarde tentei outra vez, mas por infelicidade meu pneu clincher estourou quando já estava a 50 kilometros horários. Este tipo de pneu não esvazia aos poucos como em outras bicicletas, e ele estoura perdendo todo ar em menos de 2 segundos. Tal situação deixou-me com medo, pois a 50 Km/h mal pude controlar a bike, imagine a 80-90 Km/h. Poderia significar a própria morte... em gesto de maturidade, deixei de tentar. Tinha a vida inteira pela frente para tentar outras façanhas menos perigosas, e também pelos familiares. Pouco tempo depois, abri o jornal e vi uma notícia que me deixou muito triste. Um ciclista gaúcho, participante das provas da federação, fora atropelado e faleceu. Treinava ele em uma via quando foi atingido por um veículo em alta velocidade. Eu, já desmotivado após meu incidente do pneu, acabei abandonando as velozes ruas... passei a usar uma mountain bike GT outpost, muito boa por sinal. Montei-a com o grupo exage, que lhe dava precisão e suavidade. A mountain bike levava certas vantagens, pois me dava mais agilidade e segurança. Inclusive me permitia a desviar pela calçada quando necessário, o que era impossível em uma speed. Em uma proposta razoável que me fizeram, vendi a linda trek 2000. Passei a fazer uso normal das bikes, passeios como os outros... passeios de domingo! Nunca esqueci a velocidade, e por vezes ainda experimento o sabor do vento... o silêncio, o ar quente que fica frio por causa da velocidade, a sensação do guidão sobre as imperfeições do piso, emoções de um ciclista amador, um verdadeiro sonhador sobre duas rodas. Gaúcho voador...

Roberto Furtado